
Está rolando uma idéia de reunir a turma do ginásio passados 35 aninhos da formatura e isso me leva a uma reflexão sobre o quanto restou de nossos relacionamentos.
Dos mais chegados, lembro que muitos entravam pelo corredor lateral lá de casa e às vezes anunciavam sua presença apenas gritando meu nome enquanto caminhavam casa adentro, outros tocavam a campainha e não raro saboreavam um lanchinho da mamãe enquanto aguardavam minha volta da rua ou terminar um banho. Emprestavam e pediam emprestado de tudo: desde um caderno para copiar matéria até um brinquedo (lembra do genius?); um disco ou até mesmo a vitrola para tocar o disco emprestado.
Passados 35 anos, ao menos a mim, muito pouco restou daquela intimidade toda, sinto muita falta de contar com um amigo de forma ingênua e franca, de tê-lo como um confidente fiel a quem possa falar minhas angústias e, em troca, pacientemente escutar as suas e já conformo-me reconhecendo que este tempo já passou, não o terei jamais.
Teimosamente tento combater a idéia de que esse encontro será tal qual aquele filme "Tempo de Despertar", sobre a história do Dr. Malcolm Sayer (Robin Willians) que consegue trazer à superfície um grupo de catatônicos sem contudo perpetuar a cura perdendo-os paulatinamente de volta a cada condição.
Longe de mim afirmar que o encontro será um fracasso. Nada disso! Tenho como certo que será muito emocionante, divertido e gostoso. O fluxo das lembranças será intenso: memórias dadas por perdidas serão resgatadas graças ao generoso apoio de algum amigo e informações nebulosas serão depuradas, quem sabe esclarecidas. O que foi motivo de pudor será agora apenas grande bobagem, trataremos com tranqüila liberdade a respeito de travessuras que eram então moeda forte de chantagem como a revelação de quem perdeu aquela figurinha carimbada, do ovo do aniversariante ou ainda de quem colocou a moeda no soquete da lâmpada da sala de aula. É certo também que alguns traremos refratários pudores da época: um apelido, uma paixão ou até algo de que se arrependera proferir, nada que a maturidade do grupo não consiga dissipar aproveitando-se do clima festivo e da evanescência do escasso tempo do encontro.
E daí? O que iremos fazer depois? Marcar um novo encontro em setembro de 2043?
Ou será que, tal qual os pacientes do Dr.

À medida que sinto o passar dos anos percebo que necessitamos construir um presente a cada dia para poder saudá-lo como um bom passado, no futuro. Penso ainda que cada grupo de ex-alunos, ao reunir-se em celebração à amizade, deveria aproveitar a oportunidade para gestar uma nova etapa memorável, algo que vá além da efêmera lembrança da comemoração, algo de que possa se orgulhar. E o que é essa coisa que vai além? Essa coisa que vai além manifesta-se de várias formas e hoje observamos grupos que decidem alegrar teatralmente crianças doentes, outros que limpam banheiros públicos e outros ainda que plantam árvores e delas cuidam.
Tudo depende da cara do grupo, de sua afinidade, de sua personalidade intrínseca e cabe ao próprio grupo encontrar qual é a sua, discutindo idéias e colecionando voluntários de tal forma que ninguém venha a sentir-se forçado a participar, isso é ruim demais, tanto para o grupo quanto para o infeliz pseudo-voluntário.
Muitos de nós mal têm tempo para ler essa baboseira toda, outros podem achar politicamente interessante, quem sabe até portadora de dividendos resgatáveis. Tudo é possível diante de uma provocação mas o fato é que não ficaria tranqüilo caso deixasse de manifestar esse pensamento.
Saibam que não ficarei nada desapontado caso essa provocação não provoque ninguém vindo a ser solenemente ignorada por todos. Eu mesmo pensei em arrolhá-lo a mais uma garrafa lançada ao oceano.
"Muitos não puderam quando deviam porque não quiseram quando podiam." (Rabelais)